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Postado por Elaine Mafra em 26 de fevereiro de 2004 ás 17:21
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Rap Nacional: O DMN é um grupo que sempre teve um discurso bem militante, apesar de passar por algumas modificações de tempo e componentes. Vocês acham que este discurso e a postura do grupo ainda continuam?

Markão II: O grupo mantém a mesma postura. Ainda acreditamos que o povo preto e pobre tem que ter seus direitos respeitados e que os jovens devem fazer parte desse debate, desse processo de transformação. Quanto ao discurso, acreditamos que ele nas composições ainda continua forte e contundente. A grande diferença hj é que estamos mais maduros; quando apontamos algo que achamos errado ou reivindicamos algumas coisas, estamos fazendo isso de uma maneira mais ampla, com ponto de vista mais apurado. Através da experiência de alguns anos de estrada conseguimos entender um pouco melhor como funciona a sociedade, e assim, aprendemos a separar melhor os assuntos, posicionamentos, e principalmente entender que nem tudo se consegue a ferro e fogo. As vezes é preciso recuar para poder atacar depois. Nosso lema hj é: admitimos perder uma ou outra batalha, mas perder a guerra jamais.

Rap Nacional: Vocês já lançaram vários CD’s , mas sempre por algum selo/ gravadora, inclusive o atual, porque não optaram por um trampo independente?

Markão II: A discografia do DMN é a seguinte: Em 1992, a música “Isso Não se Faz”, na Coletânea Consciência Black, Vol. II. Em 1993 – O primeiro álbum solo de nome “Cada Vez Mais Preto”. Em 1998, o single “H. Aço”. No final de 2001, o álbum “Saída de Emergência”. Em 2002, o álbum “DMN ao Vivo”. E agora nas lojas nosso novo álbum o “Essa é a Cena”. Certamente o DMN já passou por vários selos/ gravadoras, porém podemos dizer que nossa caminhada sempre foi independente. Por exemplo, a produção musical do álbum “Cada Vez Mais Preto” – (na época eu ainda não era do grupo, mas acompanhei algumas etapas da produção) foi toda paga pelo DMN, ai quando ficou pronto o tape foi vendido para a Zimbabwe, hj Zâmbia. No “H. Aço” tb pagamos tudo e entramos de sócios com o Milton Sales, na Companhia Paulista de Hip Hop. No “Saída de Emergência” foi a mesma coisa só que com o pessoal da produtora BROS. Co. Agora trabalhar assim é pauleira, por isso no “Essa é a Cena”, optamos em deixar a preocupação financeira para a Mel produção. Existe uma falsa idéia de que no sistema independente as coisas funcionam melhor e o lucro é certo. As pessoas nem imaginam o grau de dificuldade que é produzir, lançar, distribuir, promover e controlar as vendas de um CD. Hoje ser independente é muito mais uma questão de opção, do que compensação. A pirataria detona as grandes gravadoras, e com o pequeno produtor mais ainda. Existem outros campos fora a produção independente de CDs que queremos nos aperfeiçoar, e tudo terá que ser feito por nós mesmos. Desta maneira, estamos preocupados em montar nosso selo, um bom show, em desenvolver nosso site, em construir um turnê pelo Brasil, em divulgar mais o nome do DMN, enfim, tem várias fitas para correr atrás.

Rap Nacional: Falando no novo álbum, comente sobre este trampo, produção, participações e principalmente a saída do LF

Markão II: Sobre a saída do LF, só podemos confirmar que é verdade. Estamos preparando uma entrevista e com ele vamos explicar tudo a todos. Com relação ao álbum “Essa é a Cena”, ele levou 1 ano para ficar pronto. Tentamos fazer dele um grande laboratório. Queríamos viajar em sons de R&B, Funk, compor alguns sons sem ter que recorrer ao sample, tocar a maioria dos instrumentos e nas letras abandonar o apelo de lição de moral q muitos raps tem. Enfim, é um álbum que contou com várias parcerias e essas nos ajudaram a superar algumas das nossas limitações. Gostaríamos de agradecer ao DJ QAP, DJ King e ao Diogo Poças pelas produções musicais, ao Lino Crizz, Silvera, Sandrão, Maionese, DD, R.A, Guilherme, Filho Pródigo e ao W pelas parcerias de composição, ao Mosca e ao Pato por toda a assessoria nas edições e mixagem, ao Edu Neto pela masterização show de bola, enfim, a todos que nos ajudaram a chegar na finalização desse trabalho que classificamos ser um dos melhores do DMN.

Rap Nacional: No Brasil varias ONG’s são criadas para militar pelo Hip Hop, o que vocês acham deste trabalho? Site alguma que vocês conheçam?

Markão II: No meu ponto de vista e tentando ser o mais consciente e justo possível, ONG para trabalhar pelo Hip Hop ainda não conheço nenhuma. Do que me lembro são de algumas organizações que trabalham a questão da juventude e que tem atividades pontuais, tipo oficina de break, discotecagem e rima. A maioria acredita que trabalho importante pelo Hip Hop é fazer o jovem ter consciência. Sendo assim, discutimos sobre a ALCA, sobre o machismo, o sexismo, sexualidade, sobre a policia, menos sobre o que é importante para manter o Hip Hop vivo. Alguns podem torcer o nariz pelo que falo, mas é a real. A gente se preocupa com a politização do nosso povo, em conseguir ônibus para levar os jovens para o encontro x ou y, em defender os ideais do partido tal, e por outro lado não sabemos como se liga um toca disco ao mixer, ou se há diferença entre um TAG e uma pintura em Perspectiva. Depois saímos reclamando que não temos estúdio para produzir, e que os existentes cobram caro, que as rádios são tendenciosas e etc. Temos que construir alternativas concretas para o Hip Hop, não só ficar na teoria. As organizações para estar a serviço do Hip Hop, tem que discutir estratégias de fortalecimento do mercado independente de música, os benefícios da utilização das rádios comunitárias, os mecanismos para diminuirmos a pirataria, a utilização dos teatros públicos e casas de cultura, assim como os cofres públicos para financiar espetáculos de Hip Hop, se mobilizar para o fim da Ordem do Músicos, incentivar a criação de escolas de arte para os jovens menos favorecidos e etc… Consciência, politização é importante, mas só isso não vai garantir que sejamos capazes de gerenciar e manter viva as várias manifestações artísticas do Hip Hop.

Rap Nacional: O Final do ano passado e o inicio deste, foi super agitado o cenário Hip Hop, vários grupos importantes lançaram álbuns (inclusive vcs é claro) e agora o lance do Hip Hop Manifesta, o que vocês acham de tudo isso?

Markão II: Esses acontecimentos tem tudo a ver com a pergunta anterior. Os grupos bem ou mal estão produzindo e aparecendo. E infelizmente o Hip Hop Manifesta nasce da nossa incapacidade de explorar o lado comercial que o Hip Hop tem.
A gente briga para lançar CD, para estourar as musicas, mas não sabe ao certo como fazer para divulga-lo, quais os direitos que temos sobre a obra e o quanto isso gera de emprego e dinheiro. A gente quer mostrar ao mundo a nossa manifestação, mas não se preocupa em aprender como se elabora um evento para que possamos apresentar algo com qualidade. “Então a velha história outra vez se repete”, quem tem dinheiro enxerga o potencial da coisa, investe, ganha e nós ficamos com as migalhas. Se ao invés de ficarmos super bitolados em formar militantes soubéssemos equilibrar as coisas e também formar profissionais, o quadro seria diferente. Temos que aprender a gerenciar nossas coisas. Hoje sabemos que para vencermos essa guerra temos que ter consciência para sermos politicamente corretos, conhecimento das técnicas no setor que trabalhamos e capacidade de gerenciar o que produzimos.

Rap Nacional: DJ Slick, como foi a iniciativa de participar do BBB4, sabendo da responsabilidade que você teria perante o movimento, principalmente pelo forte manifesto que o rap faz em relação a mídia??

Slick: Para participar de um reality show como aquele, acredito que para mim seria um grande desafio. Fiel ao Hip Hop como sou, tinha plena consciência que estaria pisando em um lugar perigoso. Mas da mesma forma que a Globo me usaria para o programa, eu usaria o programa para falar sobre o verdadeiro Hip Hop, falar das nossas bandas, dos nossos trabalhos. Estaria lá para mostrar ao Brasil a verdadeira proposta do nosso movimento, mostrando nossa comunidade e nossos lideres. Enfim, sem esquecer, é claro, que tentaria ganhar aquele dinheiro.
Quais os projetos para esse ano? Vai rolar vídeo clipe, festa de lançamento ou algo assim?

Markão II: Já gravamos o clip da música “Talvez Eu Seja”, acreditamos que em março deva estreiar no Yo! e estamos finalizando nosso DVD que deve sair em abril/maio. Festa de lançamento se rolar vai ser na rua, durante o dia e de graça para todos curtirem.

Rap Nacional: Atualmente varias rádios no Brasil tem tocado rap gringo e o espaço para o nacional ainda é muito pequeno. Na opinião de vocês, como fazer para esse quadro mudar? Ou este lance dos gringos é um lance de modismo e logo vai parar ?

Markão II: Certamente o lance das rádios estarem tocando black music gringa é uma questão de moda e será passageira. Só conseguiremos ter um destaque duradouro nos veículos de comunicação quando estruturarmos nosso mercado interno de Hip Hop. Ou seja, quando tivermos nossas rádios, jornais, revistas, quando nossas lojas de roupa tiverem êxito, quando nossas gravadoras não precisarem das empresas seculares para distribuir os CDs no Brasil inteiro, quando conseguirmos ter nossas próprias casas noturnas, quando tivermos nossas lojas de discos espalhadas por todos os cantos e não só na 24 de maio, enfim, temos que ter um mecanismo, uma engrenagem de trabalho super competente e profissional que faça o intercâmbio com outros segmentos da industria, seja ela qual for, mas que não seja totalmente dependente desta relação.

Rap Nacional: Qual o balanço que vocês fariam do 1.a ano do governo atual e as expectativas para este ano?

Markão II: Classifico esse primeiro ano como bom. Sabemos que para mudar o país quatro anos vai ser pouco, tem muita coisa errada. A real também é que a gente acredita no Lula, na sua equipe e tentamos fazer a nossa parte para ajudar. Tem vários projetos da hora para serem implantados e as coisas vão acontecer aos poucos. Estamos na expectativa do lançamento das Bases de Apoio a Cultura (BAC), acreditamos que vai ser muito bom para o Hip Hop, é só ficar ligado.

Rap Nacional: Uma vez rolando uma idéia com o Markão II, ele chegou a comentar que o disco saiu praticamente simultâneo nas lojas e camelos, como vocês encaram isso?

Slick: Na verdade não é surpresa para ninguém. Vivendo num país onde comprar um CD é tão difícil por conta do preço, comprar no camelo é uma saída para quem não tem grana. A culpa não é nem de quem compra no camelo e sim das gravadoras que vendem os CDs originais a altos preço. Acredito que todos gostariam de comprar um CD com encarte.

Para finalizar um bate bola
- Um DJ – Slick
- Uma musica – A Little Guetto Boy
- Idéia: Tem que ser boa para todos
- atitude: Expor o que vc pensa independente do que os outros possam achar
- família : O alicerce para a construção da sua vida
- respeito: Com o direito dos outros
- sinceridade: Usa-la sempre
- estudo: Fundamental para o crescimento pessoal e ótimo para esfregar na cara de quem acredita que somos incapazes.
- compromisso: Com a verdade
- SABOTAGE: Perda irreparável
- amor: pelos meus filhos e pela vida
-presente:CorreiraBrava
- passado: Inspiração para a luta de hoje
- futuro: Trabalhar para que ele seja melhor
- um momento: Ter escutado a música do DMN pela primeira vez em rádio
- o Salve: A todos que acompanham o DMN no shows, a todos que curtem nossa música, nossas idéias, enfim, que botam fé no estilo de vida DMN, muita paz e um beijo no coração.

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