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Como não noticiar a morte de uma rainha

Postado por Elaine Mafra em 8 de abril de 2010 ás 22:35
DINADI
Como não noticiar a morte de uma rainha  | leia esse artigo
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Por Lucio Carvalho

Nessa história uma mulher me servirá de exemplo. **
A rainha está morta. Está morta, mas a dúvida persiste: como noticiar a morte de uma rainha? Pela lógica, seria suficiente reservar o destaque dos jornais, a manchete dos portais ou, da forma atualmente mais usual, disparar uma torrente de tweets na internet. Mas, como levar isso a efeito se a rainha é uma brasileira e tem como nome Viviane Lopes Matias? Como, em se tratando de uma rainha que nasceu numa família brasileira, viveu uma vida de brasileira e morreu de parto, mesma causa que acaba, anualmente, com a vida de milhares de mulheres brasileiras? A essa altura, é conveniente fazer outra pergunta: mas afinal, de quem se trata? Que rainha pode ter tido uma vida descrita dessa forma e, mesmo rainha, mesmo depois de morta, continuar incógnita, transitando entre os nomes dos jornais em linhas escassas, junto aos meros mortais? Viviane era mais conhecida pelo seu nome de cantora, Dina Di, e provavelme nte nunca tenha feito questão de apartar-se do povo, das pessoas comuns, e isso pode explicar em parte o quase nenhum destaque da notícia de sua morte, no último 19 de março.

Rainha de que lugar? De quais súditos? De que família real? Dina do quê?
Apesar de ter habitado nos útimos 20 anos, com todo o direito, a alta cúpula da música brasileira contemporânea, Dina Di é muito mais conhecida como “guerreira” do que como “rainha”. É claro, onde estão os reis, mesmo simbolicamente? No trono, longe das dores do povo, a quem conhecem por mensageiros, cercados por bajuladores e traidores. Dina Di sempre esteve à vontade na linha de frente, empunhando o ritmo e a poesia (rythm and poetry) como armas de quem combate de peito aberto as agruras da vida e, por isso mesmo, as conhece do princípio ao fim.

Pensando bem, que rainha diria em alto e bom tom que “tem que ter base e pó pro seu olhar de cansaço”?
Enquanto viveu, Dina D i nunca esteve no trono, com exceção ao ganhar em 2009 o Prêmio Hutúz, iniciativa de Celso Athayde e da Central Única das Favelas, na categoria de grupo feminino da década, que levou junto com o Visão de Rua. Sua voz, como ela mesma declarou, encontrava a paz quando podia confortar presidiárias, a quem dirigiu sua primeira “canção” de trabalho, “Confidências de uma presidiária”. Quando abraçava as mães que perdem seus filhos precocemente pelo vício, pelo tráfico e pela violência habitual de quem habita as periferias de São Paulo, de Campinas, sua cidade, ou de qualquer outro lugar, porque periferia continua sendo periferia em qualquer lugar. A voz de Dina Di, que tem o perfeito sotaque brasileiro, jamais acariciou a hipocrisia de uma sociedade cindida entre possuidores e excluídos, mas rasgou noites e noites em bailes de rap e tocou muitos corações, fossem femininos ou não. Em algum das centenas de blogs que registraram o merecido destaque pela sua mor te, há um depoimento que demonstra a força de sua presença: “por causa da Dina Di eu não abandonei minha família e não descuidei dos meus filhos.” É o sinal definitivo de que o recado chegou ao ouvido de quem precisava ouvir e que a mensagem não foi meramente jogada aos quatro ventos.

Como lembra GOG, ou mais simplesmente Genival Oliveira Gonçalves, seu parceiro e amigo, voz seminal do rap brasileiro e militante desde antes do nascimento do hip-hop, em artigo publicado em seu site, lembra a fala de outro parceiro do rap, Gato Preto: “dê-me as rosas ainda em vida, porque morto não sentirei o seu perfume.” E a guerreira Dina Di soube espalhar como ninguém rosas (e suas dores) por toda sua vida e trajetória. Não viveu por suas dores e feridas, mas jamais deixou de respeitá-las.

Os súditos de Dina Di são os habitantes urbanos que embalam-se como podem nessa vida onde o que resta é, como define a gíri a, “jogar-se”. Como eles, Dina Di também jogou-se. Antes disso, a vida jogou-a na própria vida. Sua biografia parece-se à biografia de milhares de mulheres que vivem uma vida muito real, com a diferença de que decidiu escrevê-la a partir da sua vontade de vivê-la. Quem conhece ou ainda venha a dedicar-se a conhecer o trabalho de Dina Di e de tantos outros compositores do rap nacional vai perceber que ali há, além de uma construção muitas vezes primorosa, uma narrativa construída através de suas vidas, a partir de sua verdadeira identidade.

Em 2002, a jornalista Eliane Brum, de Época, reportou a insurgência feminina na cena do rap nacional e Dina Di foi seu destaque. Ali, dá para saber, entre outras coisas, que tinha consciência perfeita de sua vida e de suas possibilidades: “uma mina que não tem emprego, nem estudo, nem chance” e que muitas vezes fazia e cantava rap para mostrar que estava viva, que não esquecessem sua existência.

A família real de Dina Di não é composta de pessoas reunidas por um sobrenome pomposo, mas por pessoas que se deram as mãos, samples, scracths em muitos momentos, em faixas produzidas em estúdios muitas vezes caseiros. Casada, deixa dois filhos e um marido, a quem dedicou o CD “A Noiva de Thock”. Em sua biografia, o pai faleceu precocemente e mãe foi assassinada em casa. Passou muitas vezes pela FEBEM e estudou numa escola que não confere diplomas, mas sentenças. Sobreviveu não por heroísmo, mas por ser da família brasileira e que muito bem Rappin Hood lembra que “o brasileiro é aquele que não desiste nuuuunca”. Tá ligado?

Dina Di também não desistiu, tentou viver de todas as formas mas acabou por confirmar a estatística que denunciou em suas próprias composições. Mulheres morrendo em maternidades, em seus corredores ou longe deles, segundo dados da UNICEF e divulgados pela BBC, atingem as raias da indecência. Nos países subdesenvolvidos, as chances de não sobreviver ao procedimento do parto, por complicações, é 300 vezes maior que nos países desenvolvidos. Essa é o mesmo tipo de indecência que exclui crianças e adolescentes, de forma sistemática, do ensino básico e os colocam na rua, no subemprego e na marginalidade antes do fim do ensino médio. Em alguma faixa de seus discos, ela diz: “terceira série foi o suficiente”. É desse jeito. Mesmo assim Dina Di será sempre autora de uma epopéia em versos. Impressionante? Impressionante mesmo é ter mantido a vontade e convicção de traduzir em ritmo e poesia uma vida vivida em condições tão difíceis.

Numa de suas letras, talvez a mais marcante delas, “Marcas da adolescência”, ela confessa: “eu quero educar meu filho e quem sabe até paz”. Um desejo que revela o sonho de viver uma vi da simples, mas ficar por aí, mesmo que pareça simples, também comporta grandes dificuldades, não se resolve em um passe de mágica. Não no Brasil ou quando se está abaixo da linha da pobreza. Quem explica isso é uma de suas fontes e referências, os Racionais MCs, que na letra de “Negro drama” sentencia que “para quem vive na guerra, a paz nunca existiu”. Dina Di, ou Viviane, comprovou isso até o último de seus dias.

Manuel Bandeira disse, lá pelas tantas de sua vida, que fazia versos como quem morre. Dina Di, a guerreira, não a rainha, fazia versos como quem vive. Fazia versos como vivia. Por isso é custoso aceitar sua partida. Que vá assim, nesse tipo de circunstância. Dina Di, a rainha, não a guerreira, tem dois fihos que viverão sob o seu exemplo e uma multidão anônima que ainda lhe permanecerá fiel por muito e muito tempo. Este é o grande poder dos poetas, não dos reis e daqueles que assim se auto-proclamam. Isso mostra que guerreiros t ambém deixam legado e geram descendência. Isso, para muitas pessoas, é razão de alívio.

** Assim começa a letra de “Confidências de uma presidiária”.

O texto foi escrito por Lúcio Carvalho e enviado para o Portal Rap Nacional por email. O autor é coordenador da revista Inclusive: inclusão e cidadania e autor de Morphopolis

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Comentário dos Leitores:

  1. [...] abril 9, 2010 por luxiusoaker Por Lucio Carvalho Também publicado na Inclusive e no Portal Rap Nacional. [...]

  2. [...] This post was mentioned on Twitter by Mandrake, O Rap Informa. O Rap Informa said: .@RAPNACIONAL Como não noticiar a morte de uma rainha http://bit.ly/aoDcKg #ORapInforma [...]

  3. andre disse:

    cem palavras to emocionado

  4. pedro arapoanga/df disse:

    vai com Deus rainha guerreira

  5. [...] Por Lucio Carvalho Também publicado em Morphopolis e no Portal Rap Nacional. [...]

  6. Omar disse:

    Essa reportagem da Época é loquissima.

  7. alex street disse:

    descanse em paz A REAL RAINHA GANGSTA RAPPER

  8. Nitroxico disse:

    vixi mano, mandou bem pracarai
    dinadi rainha eterna do rap nacional

  9. markinho disse:

    esteja em paz eterna RAINHA do rap, vamos sentir sua falta,agora esta fazendo rimas com o saudoso mano SABOTA!!!!!!!

  10. guinho disse:

    com certeza Deus esta la em cima com ela…ele leva as pessoas boas primeiro…
    os ceus se alegraram com sua chegada..guinho…b.camboriu

  11. evandro disse:

    lamento muito perdemos uma musa do rap nacional,mas daqui uns 20 anos teremos uma grande reviravolta no rap,com a menina linda que dina di nos consedeu a graça de por no mundo,espereeeee pra ver ver dina di filha, há nova musa do rap em 2030? vai coom deus rainha dina di…

  12. Nill disse:

    excelente RAPortagem. as idéias da dina di serão lembradas concerteza, isso se o rap naum for pro caminho q ta indo, mas se depender dos verdadeiros será lembrada sim. paz

  13. guilherme disse:

    MTA PAZ DINA,VC fez o seu papel aqui na terra,plantou em nossos coraçãoes mto amor,respeito e gratidão eterna por vc,……agora vc se encontra melhor do q agente aqui na terra,onde não empera a sombra da maldade nem a influencia do predador,onde os anjos de deus te levarão até o pai,onde vc ira se reencontrar com sua mãe,e com outras pessoas q passaram por aqui……o sabotage esta ao seu lado,assim como tds os guerreiros q tinham sede de justiça,assim como vc!!!te amamos dina,ate o fim,!!!!

  14. léck disse:

    tenho certeza que se ela foi agora é para olhar nois todos do gueto
    e iluminar cada passos nossos…descanse em paz guerreira rainha Dina Di….

    léck …

  15. eloy disse:

    ai Dina di esteja com Deus

  16. WASHINGTOM disse:

    EEE SAUDADES!!!MENINA SEMPRE VAMOS LENBRAR DE TI!

  17. vivi/myna disse:

    e isso mesmos mano dina di foi exemplo para muitos enfrentou os gigantes ,lutou e falou a verdade sem maquiagem.esse sistema fracasado,do nosso pais,levou a menina guerreira ,mae,mulher,rapper linha de frente.nem o tempo apagara a falta que vc vai fazer falta

  18. Samara disse:

    espelho para muitas mulheres que estão na luta assim como ela esteve , suas letras são palavras de uma mãe que sempre quer o melhor para seu filho, assim como muitas guerreiras que morreram por seu filhos ela tambem se foi … Que esteje em Paz .
    Samara / ferraz de vasconcelos.

  19. Nani disse:

    Lamentável perda com certeza, Dina Di, Sabotage e Gilmar. Mas é como diz a letra do Alvos da Lei , OS HERÓIS NÃO MORREM. (Cabe a nós não deixarmos morrer o que cada um deles plantou)…

  20. Mano George disse:

    Dina: Variação de Adina. Indica uma pessoa que tende a usar a força de sedução para conquistar tudo o que deseja. Se for mimada em criança, poderá se tornar possessiva e manipuladora, quando adulta. Mas, se aprender que as conquistas precisam ser merecidas, desenvolverá uma grande capacidade de lutar pelos seus ideais.

    FONTE:http://www.mulhervirtual.com.br/nomes/dmulher.htm

    EXTRAÍDO POR MANO GEORGE
    APRESENTADOR DO PROGRAMA DE RAP VIDA PRA PERIFERIA
    Aos sáb de 16 às 18h http://www.midiagp.com

  21. elis disse:

    que vc descanse em paz.

  22. marcos disse:

    dina vc se foi mais deixou uma luz q nunca ira se apagar as lembranças… discanse em paz guerrera de verdade… – marcospilo de salvador/ba.

  23. marco antonio disse:

    Nossa é muito dificil falar mano mas eu estive desde o começo na vida dessa guerreira eu me lembro como se fosse hoje ela me mostrando a letra da musica confidencias de uma presidiaria no terminal ouro verde em campinas mano eu sei que agora ela esta bem áo lado do nosso pai todo poderoso mais é só saudades muitas mesmo ela deixou aqui uma legião de seguidoras e rtealmente ela deixou a semente esteja em paz guerreira ……….

  24. leandro disse:

    rainha do rapp eternamente ehn nossos corações …….eternamente dina di……paz

  25. Eliane disse:

    Eternamente em nossos c

    "Eternamente Rainha Dina di,agora junto com seu Rei" Descansa em paz!

  26. Naila disse:

    Pra ser sincera, acabei lendo uns pedacinho bem pequeno por alta mesmo… mas quando o assunto é Dina Di num da pra ficar calada… Dina Di é um exemplo pra muita mulher, é um exemplo de vida… Em cada letra uma idéia me revela até mesmo quem eu sou e o que passo… Dina Di foi uma dos meus desabafos quando comecei a andar também no caminho de DEUS, nem conhecia as letras dela, apesar de sempre curtir rap… ja curti sim, é… Essa é a lei que ela canta com Ndee Naldinho e tal… e num sei se curti mais alguma antes, mas essas atuais de conversão… me mostrou até mesmo uma realidade minha, Dina Di é um espelho de sinceridade e de quem fala de coração… Com certeza como disse a menina ai de cima, sempre ela estara no coração… Sempre!!!

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