Sign in / Join

A “BIG” DIFERENÇA QUE O HIP HOP PODE FAZER NA UNIVERSIDADE

Por Daniela Luciana, jornalista, poetisa, fundadora do Grito, primeiro grupo de rap feminino da Bahia (posse Ori). Integrante da Irmandade Pretas Candangas, Cojira/DF e do Coletivo Literário Ogum´s Toques Negros.

O que um veterano rapper, membro da nação Hip Hop Brasil, é capaz de fazer como professor e gestor numa universidade federal? As ações desenvolvidas por Richard Santos, conhecido no universo do Hip Hop brasileiro como Big Richard, são uma boa resposta. 

Em plena pandemia, pela primeira vez, está presente o eixo Hip Hop – Cultura de Rua num projeto de residência artística de instituição federal de ensino superior, inclusive com distribuição de bolsas. A inserção do eixo na Residência Artística do Centro de Formação em Artes (CFArtes/UFSB) é obra do Big Professor Richard, mas a ação e os resultados são também das/os residentes, da comunidade e do Hip Hop brasileiro.

No total, participaram da residência 54 estudantes, em 9 eixos. No eixo Eixo 4 – Hip hop: cultura de rua foram selecionadas/os quatro estudantes, dois homens e duas mulheres – que foram as beneficiadas com as bolsas. 

Ponta de lança desse pioneirismo na UFSB são: CAROLINE NASCIMENTO (Loba), que é fotógrafa, videomaker, integra a Nação Hip Hop Brasil e desenvolve o projeto RAPensando (oficinas e rodas de conversas sobre a Cultura HIP-HOP e juventude negra e periférica); CLAUDIA RODRIGUES, que  (Claudinha) é artesã, multiartista, produtora cultural e promove a “Ocupação Hip Hop” em ambientes estudantis, para ressaltar a educação e cultura por meio da Arte; VITOR ANDRADE (SADAN), que é multiartivista, gestor cultural, integra os Coletivos Omí e Quintas Psicodélicas e idealizou o projeto “Terças de RAP”; YURI KEVIN (CANIVETE), que é desenhista, pintor, fotógrafo, escultor, escritor, cantor, modelo e animador.

O grupo imergiu durante um mês, em diversas atividades de criação e de partilha criativa entre as/os artistas-estudantes, o professor tutor Richard Santos e o artista convidado do Eixo, o gestor público, radialista e ativista DJ Branco, membro do coletivo CMA – Hip Hop e idealizador da Casa do Hip Hop Bahia. 

Desse processo, nasce o projeto RODA & REDE – A Cultura HIP HOP (https://rodaerede.wixsite.com/hiphop/post/roda-rede) em conexão, uma possibilidade de continuar difundindo arte e cultura, mesmo com o atual momento de pandemia vivido no mundo. O projeto visa criar uma plataforma digital que, além de valorizar, também funcione como forma de difusão da Cultura HIP-HOP, inicialmente com artistas do Sul e Extremo Sul da Bahia.

Líder do do Grupo de pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo, a partir do qual as ações referentes ao Hip Hop foram idealizadas e concretizadas, Richard Santos explica que o Grupo de  pesquisa, entre outras ações, “se propõe a debater e explorar a relevância da arte e da educação na produção do conhecimento acerca da Maioria Minorizada e da realidade ao nosso entorno.” Nessa linha, o rapper-professor universitário explica que “parte do pressuposto de que a arte e a educação auxiliam na mudança do imaginário excludente na sociedade contemporânea”. 

Sobre a experiência, Claudia Rodrigues (Claudinha) – traz seu depoimento: “A Residência Artística do  CFArtes é um marco importante na minha trajetória, pois consolida e abre novas possibilidades de metodologias ativas e ações afirmativas que vão para além dos muros da Universidade e refletem positivamente na comunidade que estou inserida bem como na sociedade civil da minha região e do meu entorno. Mostramos através dos nossos fazeres e construções coletivas, que a arte, a educação e Cultura de um povo salva e resgata adolescentes e jovens da marginalidade ‘naturalmente’ imposta.”

Claudinha lembra, ainda, que a “a Residência Artística da UFSB é a primeira do Brasil em que seus residentes tem o privilégio de dialogar e construir coletivamente com algo que colabore para a Cultura Hip Hop, criamos além de novas parcerias, cujo o fruto é uma plataforma digital que funcionará como um banco de dados dos artistas, coletivos e suas produções artísticas, no intuito de mapear, de dar visibilidade e construir pontes que facilitem suas construções e evoluções artísticas, isso é o começo da revolução no cenário do Hip Hop do Sul e extremo Sul baiano em que nós tivemos a honra de fazer essa interlocução e/ou entrelaçamento da Arte Educação da periferia com a academia. A união dos saberes e práticas continuarão nos conduzindo a ocupar os espaços que são nossos por direito e por resistência.”

CAROLINE NASCIMENTO (Loba), a outra bolsista, ressalta que “ter tido a oportunidade de desenvolver dentro da academia um projeto voltado para a Cultura HIP-HOP é muito simbólico tendo em vista os anos e anos de repressões vividas por todas as culturas que vêm das periferias e dos povos negro descendentes. É uma ação que age de forma decolonial, nos colocando enquanto narradores de nossas histórias e realidades, trazendo pro ambiente da universidade a importância dos saberes orais construídos pela Maioria Minorizada e suas culturas de resistência que se contrapõem a um sistema de opressão social.”

RESIDÊNCIA – A residência selecionou 54 estudantes-artistas por meio de um edital simplificado, sendo 18 deles/as contemplados com uma bolsa no valor de R$400,00. As inscrições foram abertas a estudantes de Artes dos três campi da UFSB, de qualquer um dos cursos (BI Artes; LI Artes e Suas Tecnologias; Som, Imagem e Movimento e Artes do Corpo em Cena).

Foram contemplados 9 eixos, envolvendo 11 professores/as do Centro de Formação. Entre os/as convidados externos/as, a Residência contou com o ator e dramaturgo Felipe Cordeiro (Belo Horizonte – MG) no Eixo 1 – Escrita Criativa para a cena: do palco às telas; o artista e educador Ziel Karapotó (Recife – PE) no Eixo 2 – Territoriolidades; o DJ Branco (Salvador – BA), no Eixo 4 – Hip hop: cultura de rua; o curador de arte e gestor social Digg Franco (São Paulo – SP), a curadora de arte e produtora cultural Carmen Laveau (São Paulo – SP), a curadora de arte e prostituta Diran Castro (São Paulo – SP), além da atriz e performer Marina Mathey (São Paulo – SP) como co-tutora do Eixo 5 – Experiências de cura: curadoria de arte como prática política; e a artista visual Lia Krucken (Salvador – BA), co-tutora no Eixo 7 – Objetos e Caminhos Afro-indígenas.

Sempre valorizando o coletivo em lugar da individualidade, Richard Santos como um bom articulador e pensador das relações sociais no Brasil faz questão de afirmar que a idealização da Residência artística , para além do eixo Hip Hop, não partiu dele, e sim de colegas que formaram uma comissão para tal empreitada, e que caminhando juntos possibilitaram que um dos pioneiros do Hip Hop brasileiro mais uma vez demonstrasse a ousadia da inovação. Ele lembra e registra os nomes das colegas que formaram a comissão; Profa. Annaline Curado, Profa. Clarissa Santos, Profa. Cristiane Lima, Profa. Dodi Leal, Prof. Éder Rodrigues, e a estudante Sthefany Brito. “Uma andorinha só não faz o verão”, conclui.

Comments are closed.