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ARTIGO: Hip-Hop de libertário à liberal – Por: Toni C.*

“O rap é a música da liberdade!”. Frase bonita machuca a quem? Aquele que não gosta de rap, ou os adversários da liberdade, certo? Em outras palavras patrício, fere o inimigo. Ponto pa nóis? Vai vendo…

O Hip-Hop é libertário, quer dizer liberta, surgiu pra libertar. Uns bico se apressam. “Nossa cultura nasceu pra diversão, as questões sociais foram postas depois”. É memo? Transformar bairros, com índices de mortes violentas maiores do que países em guerra, em centros culturais a céu aberto é uma ação que engravatado no congresso não é capaz, Hip-Hop é Política, com “P” maiúsculo, por isso é libertário.

Mas existe um fenômeno que nem mesmo a maior contracultura globalizada está imune. É o de adotar um discurso que esquece o “um por todos”, e quer saber só do “todos por um”, que mané “ao vosso reino” nada, só “venha a nós”, sem fazer por onde. Tá me entendendo? Ai é mamão… estender a mão? Nem pensar.

Um milhão de exemplos não alcança o desrespeito que acometeu o palco do Via Marquês na abertura do show da turnê do grupo Bone Thugs-n-Harmony. Vaias, qualquer artista está sujeito a ser alvo, as gravações raras dos antigos festivais da canção provam isto, Caetano, Gil, Vandré, Chico…

Mas o que justifica afrontar o maior DJ do Brasil, ouso dizer, quiça do mundo? KL Jay, postei, poderia ser Nobel da Paz, sagaz, inteligente, versátil, arrojado, mas acima de tudo um ser humano extremamente fundamental. Talentoso na arte de fazer da vida de risco a trilha sonora performática, um exemplo.

Mas não, nesse dia ele não era a atração principal, não tem toda aquela marra, não veio da gringa, feito Ed Motta, que xinga quem não cuspa num inglês genuíno. Era um zé, e o povinho vaiou, simples assim.

“Mano é o seguinte. Aqui quem manda sou eu quando estou aqui em cima. Eu vim aqui dedicar meu talento para vocês, vocês estão reclamando é problema de vocês. OK? OK? OK? Aqui é 28 anos de carreira, ok? Vocês não gosta, o problema é de vocês.”

KL Jay mostrou o dedo e saiu fora, mas a tiração não acaba ai, afinal ser alvo de desrespeito, todos nós somos, todo santo dia que eu sei, mas ninguém ganha de uma pessoa que entrou pra história como a primeira mulher eleita presidenta do Brasil. “Ixi, lá vem o Toni.” É tiu, tá facin entrar na onda, bater panelinha, raspar o prato é fácil, lavar a louça é pra poucos. Aí tá eu vendo os “revolucionários” de internet, chamando #vemprarua, vê só. Cinco cariocas, fazendo freestyle, dizem eles, mandando vê. “Todos tinham que estar preso, a tal da Dilma e o Luladrão” é apenas um dos versos dos rapperstube. No meu tempo esse movimento que faço parte boicotava a Globo e exigia liberdade. Vivi pra ver esses caras usar o rap para reproduzir o discurso do Jabor, do Lobão, e aparecer no vídeo indignado pedindo cadeia para o chefe do executivo eleito pelo povo.

Era o que precisava. Com estes dois exemplos consigo demonstrar até em rima qual é o mal: o Hip-Hop se tornou liberal. Sou do tempo em que um grupo cantava: “A cor da pele não influi em nada” e a confusão estava armada, pois alguns entendiam que ninguém deve discriminar ou ser discriminado por sua cor, outros sentenciavam: “Você tem certeza? Será que não influi em nada mesmo? Então me diz por que os mais pretos são os que tem os piores empregos? São os que mais levam geral? São os que mais são assassinados em mortes violentas?” Diz aí.

Hoje em dia pode tudo. Tem cara que diz que é MC e vive de falar mal dos outros, rede de fofoca, vale esculachar a própria mãe pra não perder a rima e ganhar uns like, uma par são bons de mira, atiram em qualquer um que ousa deixar de ser coitado. Zuado. Daqui a pouco vai ter rap pedindo a redução da idade penal.

E tem aquele cidadão de bem que quer o movimento higienizado, o grafite d’OSGEMEOS apreciou na última viagem que fez para a Escócia, comprou até ingresso para o show do Criolo mas no dia teve jantar de negócios, se sente um cara bacana. Mas pro resto do movimento faz o discurso do Datena, como os freestyleiros cariocas, esbraveja que o melhor é jogar tudo na cadeia, afinal somos uma corja de bandido sem talento.

Nem mesmo o novo disco dos Racionais MC’s foi poupado. Logo nas primeiras horas que o álbum Cores e Valores começou a circular, uma chuva de críticas em 50 tons, ácidas, sociológicas, pseudo artísticas… surgiram em pancadas torrenciais. Sou mais meu mano Gilponês: “Racionais é complexo demais para ser assimilado e compreendido tão rapidamente. Uma, duas, três, dez ou vinte audições são pouco para querer fechar uma palavra sobre o disco sem o risco de ser precipitado (…)”. Concordo, us caras levaram 12  anos para apresentar o novo álbum e você quer avaliar tudo em 12 minutos meu?

Mesmo se o trabalho fosse ruim, os chamados quatro pretos mais perigosos do Brasil, construíram uma história tão singular neste quarto de século que não seria nada elegante descontruí-los. Quem tem esse direito?

Sei lá, até grupo que só tá no rap graças aos caras, hoje faz música falando mal, faz clipe descendo o pau. Não advogo pelo grupo, advogo em causa própria, ouça bem: Eu existo, faço o que faço e me reconheço como a-gente porque quando eu tinha nove anos ouvi, gravei e repeti até esganar uma fitinha cassete com a surrada: Pânico na Zona Sul.

O novo disco do Racionais está longe de ser um trabalho irrelevante, ao contrário, Cores e Valores, de maneira muito mais sofisticada, sutil e até mesmo controversa continua sendo o Pânico, não o programa da TV cheio de pâniquetes rebolando, “Vamos fugir desse lugar”, o PÂNICO do andar de cima, aqueles que se divertem na área vip dos cruzeiros pelo mundo enquanto os do meio do sanduíche batem panela.

Vamos fazer piada com a blitz policial que autuou Mano Brown. Afinal, tá pique Tim Maia… Vale Tuuuuuudo. Aszideia, a caminhada, vale nada. Se o novo trampo dos caras não incomodasse a atitude do puliça em pleno 2015, não seria a mesmíssima das autoridades que prenderam o grupo em cima do palco durante o show em comemoração aos 300 anos de Zumbi no Vale do Anhangabaú há duas décadas: Queriam calar a voz da favela. Mas seja sincero, como é possível calar o trovão?

Me ligaram um bagulho. “Tão dizendo aí que você só quer saber de business man, dos livros e de viajem na primeira classe.” Ah é? Virei um lord? Mercenário? Hipócrita? Será? Vou lançar a promoção: “Passa um dia comigo e te mostro o que é suor”. Quanto custa? Dividir o fardo e carregar também. Quem vem?

Pensa você que fita, há uns três anos involuntariamente me distanciei de uma ação ao mesmo tempo dolorida e prazerosa. Minha cara, uma saga, grande obsessão, ou seja só mais uma das minhas missões, chamada, adivinhe? Escrita à queima roupa. Justamente quando mais sou lido, do auto-reflexivo “O Hip-Hop Está Morto!”, à biografia do Maurin do Canão, passando por cada publicação nas páginas da resistente revista Rap Nacional.

Mas não, daqui vim, daqui não quero, não posso sair, textos livres, que você não encontra nas bancas, nas livrarias, dos liberais, não valem um vintém. Mas para mim vale a vida, faça valer a sua, a cultura.

Amém.

* Diretor do documentário É Tudo Nosso! – O Hip-Hop Fazendo História, autor dos livros “O Hip-Hop Está Morto!” – A História do Hip-Hop no Brasil e Um Bom Lugar – Biografia Oficial de Mauro Mateus dos Santos – Sabotage. É integrante da Nação Hip-Hop Brasil, da rede Orpas, atua na TV Vermelho, colaborador do programa Estação Periferia da TV Brasil e da Revista Rap Brasil, coordena o coletivo LiteraRUA.

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