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De Salto Alto: mulheres conquistam a cena do hip-hop

Salto alto, vestido e maquiagem. Voz afinada, flow, suingue e muita disposição para militar. Assim podem ser descritas as mulheres que tomam a cena do hip-hop no Brasil.

Negras, loiras, orientais, elas tomam conta do movimento, desde o início, e organizam-se não apenas em raps bem escritos e cantados, mas em frentes nacionais de luta e combate contra o preconceito e a violência.

Ao abandonar as calças big largas,  as camisetas que escondiam o corpo e os bonés masculinizados, elas ganharam não apenas voz, mas força. A feminilidade é destacada pela suavidade da voz em canções desafiadoras.

Aos 42 anos, a produtora cultural Sharylaine Sil traz na bagagem a responsabilidade de ter sido a primeira mulher a fazer registro fonográfico de rap no país, além de ter pertencido a uma das primeiras equipes de break, na época da São Bento. Hoje, integra a diretoria da Frente Nacional de Mulheres no Hip-Hop (FNMH²) e transmite o estilo e a firmeza do movimento através de debates e trabalhos musicais. Questionada sobre o que foi conquistado e o que ainda precisa ser mudado, ela diz que a visão machista foi quebrada, mas rebate a questão da união. “Estamos organizadas e isto, por todas as dificuldades que muitas de nós já sofreram e ainda sofrem, é a maior conquista. Temos tido muitas pequenas que considero grandes conquistas. Aos poucos chegaremos lá”, frisa.

Quem fala mais do conceito é Lunna, 31 anos, MC do grupo Livre Ameaça e diretora geral da FNMH², fundada em 2010 e que hoje atua em 15 Estados brasileiros, com a pretensão de ser expandida a outros países. Voraz não apenas nos microfones, Lunna é uma eterna defensora da causa feminina e encontra no hip-hop a ferramenta para militar. “A FNMH² está conquistando espaços onde poucas mulheres conseguem atuar. Realizamos eventos com encontros, apresentações artísticas, debates, tudo ligado as mulheres e ainda em locais periféricos, onde se faz necessário levar a cultura”, diz.

Ponto para ela quando surgem pessoas como Mariáh Médici, 24 anos. Sergipana, ela prepara ainda para este ano o lançamento da FNMH² em Aracaju, onde deve unir manifestações artísticas, música, literatura e as causas de gênero.  “Sou militante do que merece e precisa de força. Defendo sim o ‘sexo frágil’ onde estou incluída. Sempre fui feminista, ciente dos meus valores, direitos e deveres e através do hip-hop consigo expor isso com causa e efeito”, pontua.

Num movimento semelhante está a MC Rubia Fraga,42 anos, também conhecida como Rubia RPW, por integrar, há 20 anos – completados em 2011 – o grupo de rap de mesmo nome e ter desafiado a cena também num tempo em que foi uma das primeiras a segurar um microfone e cantar com homens o chamado rap bate-cabeça. Ela integra, além da FNMH², o coletivo Hip-Hop Mulher, que desenvolve no Estado de São Paulo ações mensais de inclusão das mulheres através da cultura dos cinco elementos.

“Quando comecei a cantar era raro ver mulher rimando e, realmente, o que mudou nem foi a postura dos manos, e sim a postura das mulheres. Com o tempo, elas aprenderam a se firmar, se impor e exibir seus direitos dentro da cultura”, declara.

Brancas, mulheres, rimadoras

Inspiradas pela que foi considerada a Rainha do Rap, Dina Di (falecida em 2010), muitas garotas, como Lívia Cruz, 26 anos, apostam na carreira musical, mesmo tendo que driblar, além do machismo predominante no movimento, composto, em sua maioria, por homens, o fato de serem brancas, numa cultura onde a pele negra ainda representa a maioria. “Se eu disser que sou bem aceita e nunca fui tratada com preconceito, eu estarei mentindo. Mas sobre o fato de ser mulher, a gente acaba tirando de letra, porque convivemos com machismo desde criança, já entendemos os limites que essa questão nos impõe e depois entendemos que com postura e jogo de cintura a gente consegue combater aqueles que colocam barreiras. Quanto a questão racial, eu já vim blindada, porque é natural que pessoas que tenham sofrido violência e discriminação revidem isso de alguma forma, então eu respeito. Se eu disser também que nunca me irritei com comentários racistas a meu respeito, também estarei mentindo, mas minha postura sempre surpreendeu aqueles que me subestimaram. Meu rap sempre superou essa questão”, conta.

“Medo de falar? Não ! Medo de se impor? Não !” Loira, olhos claros, nova no rap e com este refrão em sua música de trabalho DeDeus MC, 26 anos, também dribla o preconceito racial e busca o próprio destino, longe do machismo e preconceito. “Acredito que venho para mostrar que esta questão racial de ser separatista precisa ficar no passado. Essa é uma das minhas missões dentro do rap. Não acredito que eu vá conseguir mudar a cabeça de todas as pessoas, mas sei que farei a minha parte”, promete.

Assim, loiras, com videoclipes recém-lançados e com trabalhos que incluem equipes majoritariamente femininas, Lívia Cruz e DeDeus MC tentam passar sua mensagem. Para Lívia, o principal recado do seu rap é a independência. “Quero dizer que temos que ser protagonistas das nossas vidas, donas dos nossos destinos”, frisa. Já DeDeus espera espalhar sua luz por onde passar. “Seja em um som para pessoas refletirem, seja em outro para elas se divertirem ou até mesmo para namorarem. Poder sempre passar adiante as mensagens que estão no meu destino”, pontua.

Por este caminho segue também Mariáh, a sergipana da pele branca, MC da banca La Femina, que acredita num caminho de mudança. “Creio que a independência seja a principal conquista que estamos vivendo. Ainda é muito difícil segurar com dignidade, mas parece que somos movidas a desafios. A mudança começa em cada uma, com atitudes coerentes, que conseguimos mudar em nosso meio. Somos exemplo e é isso que cada mulher tem que fazer. Se tornar um bom exemplo. É um orgulho nos mantermos firmes”, finaliza Mariáh.

Texto Jéssica Balbino / Matéria originalmente publicada na Revista RAP NACIONAL

Assista alguns vídeos de RAP feminino:

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