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Mulheres no rap: conheça a mineira Brisa Flow

Por Martha Gonçalves

A mulher no rap 

Dia desses me peguei questionando quantas mc’s mulheres eu conhecia no Brasil. Eu contei em uma mão. Existem dois grandes nomes de mulheres que cantam rap no país, não preciso nem citá-las pois todo mundo sabe de quem se trata. Na minha cidade (Pelotas), só conheço o nome de duas. Começo, assim, uma série de reportagens que retrarão as meninas que fazem o hip hop acontecer em Pelotas e no Brasil.

O hip hop é um movimento imenso, que envolve música, dança, arte, poesia e tantos outros fatores… A participação da mulher existe, mas é sempre tida como menor do que a participação masculina. Não é à toa que praticamente não se conhece a história do rap num olhar feminino; a mídia retrata (e quando retrata) nomes masculinos. A mulher é encarada como objeto não só no dia a dia, mas é reproduzida dessa forma em letras constantemente. No rap podemos perceber muito a objetificação da mulher em muitas músicas de grandes ícones do movimento hip hop. Você já parou pra pensar quantas mulheres conhecemos do rap na antiga? Aí vai um:

Dina Di é um grande nome do rap brasileiro. Poucos conhecem porque o que não é veiculado passa batido, como se não tivesse acontecido. Quantas vezes ela foi veiculada? Quantas pessoas conhecem seu trabalho? A paulistana Viviane Lopes Matias foi vocalista do grupo Visão de Rua, e apesar de ter ganhado diversos prêmios e reconhecimento na cena do rap, ela não é lembrada como um ícone. Não é lembrada como uma pessoa importante por todos como é lembrado, por exemplo, o mestre Sabotage. Não é momento de comparação. A diferença é que o mestre do canão, Sabotage, é lembrado como o grande nome do rap brasileiro. Dina Di, por sua vez, é considerada a primeira mulher que ganhou espaço no rap nacional. A primeira que mostrou que rap é, sim, lugar de mulher. Porque ela não é lembrada como merece, diante de todo o significado que seu nome carrega para o rap?

A história do rap machista é um reflexo da sociedade em que se vive até o século XXI. Por incrível que me pareça, ainda hoje vivemos em um cenário de questionamentos e discussões do papel da mulher na sociedade. O retrato da mulher dentro das composições de rap (e dos demais gêneros) são apenas registros de como ela é vista pelas pessoas que as compõe e pelas pessoas que se identificam…

A mulher no rap é uma mulher consciente que dá voz e poder ás mulheres. Uma mulher que só por estar ali já mostra que é possível sim. E que assim como aquela que está ouvindo, ela e tantas outras sabem como ela se sente. É a representação de conquista, empatia e força. Pois todas sabemos que não é fácil e que não há nada de vitimíssimo nessa trajetória. O lugar da mulher é onde ela quiser! E se a mídia não retrata, retratemos nós mesmas as vozes dessas mulheres que tanto significam, pois não se pode deixar passar batido e fingir que elas não aconteceram. Está acontecendo e vai acontecer cada vez mais! Lembremos! Começo, assim, a primeira reportagem da série Mulher nos rap.

brisaflow

Apresento-lhes a mineira Brisa Flow

Entro agora nos anos 2000. Dou espaço e destaque para uma mulher que todos deviam ver, ouvir, entender e sentir. Brisa Flow é uma menina (hoje, mulher) nascida em Belo Horizonte (MG), filha de chilenos. Seus pais fugiram da ditadura chilena e buscaram refúgio em Minas Gerais. Viveu sua infância e adolescência em BH e, em 2012, foi pra São Paulo correr pelos seus sonhos.

Com uma visão crítica forte, Brisa expressa em seus versos seu descontentamento com a posição da mulher na sociedade machista em que vivemos até hoje, a visão da América Latina como país de terceiro mundo, e suas vivências – que não foram poucas! Brisa Flow não canta o clichê… Ela toca na ferida com suas letras ácidas e explora a raíz dos problemas que vê e sente na pele. Explica a desigualdade da mulher em suas rimas desde o princípio da criação que temos, aponta as falhas da sociedade machista, e afirma, em sua mais recente música lançada, que “o jogo ainda não virou mas vai virar”.

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Foto cedida pela artista

Conheci há algum tempo por meio de um amigo o trabalho dessa moça que considero um grande nome do rap atual. Peço licença para sair um pouco do meu foco de costume, a cena local (pelotense), e apresento-a a quem ainda não conhece. Brisa de la Cordillera tem 27 anos e concedeu à Plataforma Palpite espaço para uma entrevista. A jovem com um potencial imenso traz à tona temas extremamente relevantes e atuais. Aos que conseguem enxergar a situação da América Latina, do Brasil, do papel feminino na sociedade: identifiquem-se! E aos que não tem muito claro: explorem-na!

Leiam! Conheçam! Escutem! Apaixonem-se pelas letras, pela mente e pelo ritmo dessa mulher.

[…]

Martha:  Tuas letras atuais falam bastante da posição da mulher na sociedade atual. É um tema muito discutido hoje em dia diante dessa cultura machista e retrógrada que o Brasil tem e reflete diretamente nos nossos “representantes” do congresso, etc. Queria saber desde quando tu começou a perceber essa opressão com um olhar mais maduro e porque?

Brisa Flow: A opressão sempre existiu. Via acontecer com minha mãe, com as amigas e comigo quando sofri abuso/assédio ou quando me cortavam de algo porque era mina. A opressão existe, mas ninguém fala nela, somos educadas a entender que a vida da mulher é assim e que temos que aceitar. E quando acontece algo somos induzidas a acreditar que a culpa é sempre nossa. Eu me julguei e julguei muitas mulheres durante muito tempo. Só assumi pra mim mesma que era machismo na cara dura quando engravidei. Porque aí não teve como negar, tava batendo na minha cara dizendo “acorda garota”. Aí vieram todos questionamentos de uma vez: aborto, parir, violência obstétrica, maternidade, amamentação, licença maternidade, creches públicas, trabalho… E o questionamento de quem eu era de verdade e o que a sociedade patriarcal queria que eu fosse. O feminismo entrou assim na minha vida, através de outras mães e amigas que estavam se libertando também. Falo tanto de libertar porque de fato me libertou de muitas amarras e me fez querer passar essa mensagem pra outras também.

Martha:  Depois de perceber isso tudo, tu foi adaptando teus pensamentos pra um formato de verso, de música. Eu queria saber como é a repercussão das tuas músicas e o que tu acha que elas representam nesse meio do hip hop que, sabemos, ainda é muito machista.

Brisa Flow: Acho que o feminismo entrou pras letras assim como as outras questões que abordo entraram. Eu sou meio sensível, tem dias que as coisas batem em mim, me incomodam sabe? E aí eu sento, escrevo, cantarolo umas melodias e as músicas saem. A gente é plural. Passamos várias sensações e situações durante o dia, e pro artista isso tudo na mente é uma confusão que precisa ser organizada.  A música sempre foi minha forma de expressar, minha parceira. Tenho músicas que abordam outras questões como amor, terceiro mundo, repressão e etc. Elas sempre foram recebidas bem dentro do hip hop. As que tratam questões das mulheres também. Porque tem muita mina que se identifica, é até massa sabe? Mas tem machismo também, só que ele não veio, pelo menos pra mim, como críticas a letras. Deve ter gente que não gosta sim, que não curte as letras falando sobre liberdade porque é conservador. Mas essas pessoas sempre vão ter, por isso a gente tá aí na luta pela desconstrução desses pensamentos e atitudes. Mas as vezes o machismo vem de outras formas, não só como critica as letras, mas também por trás do palco. Essa que é a fita.

Martha: Como tu percebe a mulher que canta rap na mídia?

Brisa Flow: Acho que a mídia fala pouco das mulheres que cantam rap. Acho não, melhor; vi uma pesquisa de uma amiga jornalista do último ano que ela analisou a maioria dos sites de hip hop e música que divulgam rap e achou muito pouca coisa perto do número de homens. Era um número assustador. Acho chato isso, porque tem muita mina boa. Eu tenho o privilégio de conhecer e ter amigas muito boas no que fazem dentro do rap mas infelizmente o que não é visto não é lembrado e quando a mídia não fala vai passando batido. Agora tamo botando a cara e arrombando as portas de um jeito que não tem mais como negar nossa existência. Esse quadro tá mudando.

Martha:  Pra quem quer conhecer teu trabalho, tu pode indicar 3 músicas que definam o que tu procura explorar no teu rap?

Brisa Flow: Bom primeiramente eu indico ” As de Cem”, meu mais novo trabalho, acho que ela define o que eu quero explorar com minha música. Sobre meu sonho, minha trajetória e também fala da nova Brisa, essa nova mulher que não aceitou os não de BH, mudou pra SP, virou mãe, amadureceu e voltou pra pista. É meu respiro de tô de volta. Dá pra ouvir no soundcloud, no youtube, no spotify, deezer…

Depois eu ouviria a ” Veias abertas”. Tem um streetvideo dela no meu canal do youtube, e fala sobre a questão de sermos terceiro mundo e vivermos essa repressão do estado assassino que nos censura.

E pra fechar uma de amor chamada ” Desapego” que fala sobre a gente deixar o coração desapegar e a pessoa ir quando a relação não dá certo.

Quem quiser ouvir essas e outras mais tem tudo no soundcloud.com/brisaflow e no canal no youtube.com/brisaflowmc!

E um recado final: Desejo muita força pra todxs. E pra quem tem um sonho de ser qualquer coisa, corram atrás. Tenham sede por ele, trabalhem, façam sua parte… Mas lutem, porque não é fácil. E a luta vai ajudar os próximos que vierem, então lutemos! Conquistem o que é seu por direito e sem deixar ninguém dizer que você não pode, que ninguém feche as portas… e se fecharem arrombem. Beijos e amor.

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