Twitter Facebook Youtube
Home » LM » O fracasso do autor

O fracasso do autor

Toni C. *

Agitação e transito caótico, típico começo de noite Paulistana.

A novidade era que fazia o caminho inverso, rumo ao bairro boêmio da Vila Madalena para mais um lançamento literário, o meu. Dessa vez, num lugar improvável, uma livraria(!)

Poderia narrar os sorrisos, o talento e as parcerias de quem participou daquele contagiante sarau-debate-lançamento-stand-up. Mas o que não sai da memória ainda é o engasgo que pulou pra fora como uma tosse.

– Como eles conseguem? – Perguntei para aos participantes após contar o caso do Preto Du R. porto A que faleceu no dia anterior. – Imaginem o teor de neurose, a dose cavalar de angústia para matar um mano de 35 anos com ataque fuminante do coração.

Rapper Taxi, fotografado sobre a projeção do videoclip de Preto Du R. porto A. Foto: Hot Black

Há alguns anos, numa viagem ao Rio Grande do Sul, ouvi falar de um cara que fazia e acontecia no RS. Fiz algumas tentativas para acha-lo e logo estava falando ao telefone com Mano Oxi, naquele mesmo dia subi o morro Santa Teresa para me encontrar com ele. Era aniversário de Du R., e como bons gaúchos comemoravam com uma churrasqueada galdéria.

Uma semana após a morte de Preto Du R. estava novamente com Mano Oxi junto com White Jay, Beto Teoria, Sagaz, Néia Oliveira, Hot Black no encontro da Nação Hip-Hop Brasil. Sete estados presentes, comemorávamos. Parceiros novos se juntavam aos bons, gente do Mato Grosso, Rio de Janeiro e até do Acre. Antes de passar a função para Beto Teoria, Mano Oxi então presidente da entidade apresenta um mano ligeiro:
“Este aqui é o Rapper Taxi. Ele é a prova viva de que nosso movimento resgata parceiros. Nos conhecemos na penitenciária de Charqueada quando fui palestrar sobre Hip-Hop, ele era detento e hoje está aqui com nós.”

Taxi conversou com todos, se mostrou bastante atento durante os debates, sentado na primeira fileira do auditório devorava as informações com gosto.

Havia um momento para que eu falar do meu trabalho literário: “O Hip-Hop Está Morto!” foi apresentado depois que falei das publicações até ele: Hip-Hop a Lápis, Literatura do Oprimido, Um Sonho de Periferia. Saquei da quadrada, com páginas e capa, pedi para agente nos armar de conhecimento. Mencionei a infeliz relação do o título do romance à morte de Du R.. Quando terminei, antes de voltar para meu lugar fui abordado pelo Rapper Taxi, ansioso, abraçado com todos aqueles livros. Disse que queria ler tudo, se lamentava por ter demorado tanto por descobrir aquilo. – Eu não conhecia nada disso. – Falava da disposição de tirar o atraso.
Eu, respondi.
– Esse barato é pesado e isso tudo de uma vez da overdose eihn! Vai com calma.

Foram poucos dias para descobrir que o ingênuo era eu. O colete salva-vidas falhou novamente. Rapper Taxi foi assassinado atingido por 21 tiros dos mais de 30 disparos efetuados de pistolas 380, deixou um filho e esposa grávida.

Entrar em livrarias charmosas e ver meu nome em destaque, ícones de nossa cultura lendo meu livro, ser recebido por autoridades com honrarias e ser condecorado com prêmios em seções solenes, são algumas das coisas das quais nunca sonhei. Mas são insuficiente diante da urgência do nosso povo.

No começo uns poucos disseram, sem ler, que eu era muito burro ou muito corajoso por lançar um livro com esse título. “Se é outro cara já estava morto!” Ouvi num misto de alerta e ameaça. Depois passaram a dizer, ainda sem ler, que eu apelei para conseguir evidência.

Por que não foram falar pra quem fez os disparos, que isso é apelar?

Não gosto da imagem do cartaz do meu livro como decoração de funeral, não me animo de saber que o fly foi distribuído de mão em mão em missa de sétimo dia, não quero mais atividades batisadas com nome de amigos mortos.

Lágrimas de vagabundo sai na urina.

Enquanto entra mais gente no capítulo 23 do livro, um assassino passeia impune após usar seu ferro refrigerado uma MacLarem para matar no transito carioca. O pai milionário, contrata o advogado mais caro do país, arrotando que só compra do melhor, o carro, o advogado, a perícia, a repercussão e quem sabe, até o juíz.

O apresentador que casou com a loira do “Vou de Taxi” saiu em defesa do playboy deus da tempestade. “Ele estava de vagar e não tinha bebido”. Adiantou, como se isso fosse um favor. Se tivesse ido de taxi…

Nos chamam de violentos.

Apenas exigimos que a lei para Daniel Dantas e o Sarau do Binho seja a mesma.

Mas qual a credibilidade do relato, de um autor fracassado?

Toni C.
* Artista multimídia, autor do romance “O Hip-Hop Está Morto!” e do documentário É Tudo Nosso!, organizador do Hip-Hop a Lápis. Membro da Nação Hip-Hop Brasil e editor audiovisual da TV Vermelho.

Comentários:

Compartilhe:

  • Facebook
  • Twitter
  • Delicious
  • LinkedIn
  • StumbleUpon
  • Add to favorites
  • Email
  • RSS
 
 
Email
Print