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Rap Nativo: O que o Guarani e o Crioulo tem em comum?

Com o uso de línguas nativas, rappers do Brasil e Cabo Verde  resgatam a  ancestralidade e preservam sua identidade através da música. 

Por Juliana Penha 

A língua é o patrimônio cultural, o legado ancestral e a conexão entre um povo. É um dos elementos que nos agrega a um grupo, etnia ou uma nação.

No curso da História da humanidade, algumas línguas evoluíram – como é o caso do Português falado no Brasil- muitas línguas desapareceram e novas línguas nasceram, o que continua acontecendo até os dias atuais.

Porém, ao longo dessa mesma História, a medida que alguns povos foram dizimados, suas línguas e tradições ficaram perdidas no tempo.

Se pegarmos o exemplo dos índios no Brasil, veremos a gravidade do assunto. Em suas pesquisas sobre a questão indígena, o antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro afirmou que “antes  da chegada dos portugueses, eram estipuladas cerca de mil línguas faladas no Brasil”.

O “Atlas Mundial das línguas em perigo”, produzido pela Unesco em 2010, registrou 190 línguas faladas no Brasil. Sem contar as línguas já extintas, existem muitas vulneráveis, em perigo de desaparecimento. Para se ter uma idéia, existem línguas faladas por apenas um falante.

É importante reconhecer que existem organizações, grupos de pesquisa, projetos de documentação e preservação da diversidade linguistica e da cultura indígena no Brasil. Porém, ainda é necessário muito trabalho coletivo e conscientização sobre a questão do índio para reverter o processo de extermínio destinado a esse povo.

Em Cabo Verde, apesar do Português ser a língua oficial, é o Crioulo a língua nacional, a língua de identificação do povo cabo-verdiano.

Existem diferentes teorias sobre o surgimento dessa  língua. Dentre elas, uma afirma que o Crioulo nasceu da necessidade de comunicação entre as diversas etnias africanas, falantes de diferentes línguas, que foram trazidas como escravas para as ilhas de Cabo Verde pelos portugueses. Usando a base lexical do Português que ouviam, os africanos criaram uma língua própria.

A partir do século XIX, com a oficialização do ensino em Cabo Verde e a utilização exclusiva do Português nas escolas, o Crioulo foi marginalizado e excluído do domínio e prestígio social, mas não do seu uso como principal língua em Cabo Verde.

Existem linguistas e entidades que trabalham em defesa da oficialização do crioulo-cabo-verdiano, mas ainda há um longo caminho para reverter o processo de marginalização que a língua vive em sua própria terra.

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Os estragos da colonização

A colonização foi o principal responsável pela marginalização ou extinção de línguas nativas, tanto indígenas quanto africanas. A missão colonizadora, com a idéia de “civilizar” os povos considerados inferiores, usou a imposição de uma língua, destruindo assim tradições e valores ancestrais de muitos povos.

Com os africanos, o método utilizado foi eliminar a comunicação entre as diversas nações levadas como escravas para as Américas, mesclando diferentes etnias e consolidar o uso de suas próprias línguas nos países colonizados. Essa foi uma fórmula trágica para esses povos, porém eficaz na empresa colonizadora européia.

Como resultado, as línguas européias tornaram-se as línguas oficias nas ex-colônias, sob o equivocado argumento de que estas eram as únicas que poderiam permitir o progresso e a modernidade, e as línguas nativas ficaram em segundo, terceiro ou quarto plano.

Mas agora peço um minuto de silêncio para todos os povos que foram exterminados. Se pararmos para refletir: junto com eles, quantas culturas e línguas ficaram esquecidas?

Como evitar que uma língua seja extinta? 

A Unesco sugeriu algumas medidas para evitar a extinção de uma língua como: “criar condições favoráveis para os seus falantes utilizarem a língua e ensinarem a seus filhos; políticas nacionais que reconheçam e protejam essas línguas, sistemas educativos que promovam a instrução em língua materna e a criação da colaboração entre os membros da comunidade e linguistas para que desenvolvam um sistema de escrita e a introdução da instrução formal dessa língua”.

Por outro lado, existem práticas adotadas  para a preservação de uma língua que foram criadas pelos próprios falantes.

Dentro dos diversos exemplos de resistência linguística, a música surge como um elemento relevante.

No Rap, tendo em conta ser um estilo musical que além das rimas usa a poesia como forma de protesto, existe uma espécie de “exército internacional” com tropas em todo o mundo  que usam o Ritmo e a Poesia em defesa do seu maior patrimônio: a  língua.

Soldados de Cabo-Verde: o Rap Crioulo 

Nas ruas de Portugal  o Rap Crioulo é o porta-voz da comunidade de origem africana. 

A diáspora cabo-verdiana preserva  a sua identidade através do uso de sua língua nacional, que é transmitida de geração em geração,  mesmo fora do seu país de origem. Falar o Crioulo é preservar as origens.

O Rap Crioulo tem algo de singular em meio ao Rap produzido em Portugal. É sobre os capítulos da História da África e da colonização que os livros de História omitem ou abordam superficialmente que seus seus versos falam. É numa língua que os colonizadores tentaram extinguir que eles rimam. É  pelos direitos de quem, desde as “missões colonizadoras” até os dias atuais é  privado de seus direitos que ele luta. Denunciar a situação das comunidades imigrantes, o racismo, a violência policial por um lado, e exaltar a ancestralidade e as tradições por outro.

O Ritmo e Poesia traz uma nova forma de consciência para os jovens africanos. Mas o que significa para esses jovens cantar na sua língua nacional?

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Eu canto na minha língua porque é muito importante e a língua é primeiro traço de identificação de um povo.” LBC Soljah

LBC Soldjah 29 anos, estudante de Tradução e Escrita Criativa, é natural da ilha de Santiago, em Cabo Verde, vive em Lisboa há 10 anos e mora no bairro Cova da Moura. Nesse local, a diáspora cabo-verdiana mantém viva a sua cultura através da língua, da gastronomia, dos costumes e tradições.

Além de trabalhar na Associação Nacional Futebol de Rua, que usa o futebol para trabalhar questões ligadas a cidadania,  ele é um dos ativistas da Plataforma Gueto, um movimento que tem como objetivo lutar contra o racismo e pelos direitos da comunidade negra em Portugal, denunciando principalmente a violência policial contra os jovens negros.

Além de transmitir mensagens de conscientização sobre o genocídio e a luta dos povos africanos e sobre as lutas diárias da diáspora africana em Portugal e no mundo em sua música, na entrevista a seguir, ele explica a importância de rimar em Crioulo.

JP:Por que você canta na sua língua nativa? O que isso significa para você?
LBC:
Eu canto na minha língua porque é muito importante e a língua é primeiro traço de identificação de um povo.

Durante a escravatura e colonização, os colonizados e escravizados foram proibidos de falarem a sua língua nativa porque representava a resistência e o próprio colonizador não percebia o que eles comunicavam.

A própria língua “crioula” nasceu dessa resistência. Cada vez que um escravizado falasse a língua nativa os outros lembravam e havia possibilidades de revolta.

Hoje essa imposição se fixa de uma outra forma. Eu classifico a nossa comunidade como uma comunidade colonizada dentro da metrópole onde o racismo, eurocentrismo e a tentativa de desculturação ocorre com frequência.

É só ver a importância que os portugueses dão a língua para a aquisição da nacionalidade portuguesa. Isto quer dizer que Portugal não aceita um “outro” com uma fonia diferente. Como disse Frantz Fannon: “ falar uma língua é beber da fonte dessa civilização”.

Para além disso é difícil dissociar a pensamento e a linguagem. Sem a linguagem sucumbiríamos intelectual e afetivamente. Falar uma língua é vivê-la, é manter a cultura viva. O crioulo representa a resitência.

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JP: Você fez um post no Facebook recentemente, muito interessante, era como um manifesto em defesa do Rap Crioulo, onde denunciava a imposição da língua portuguesa e expressava seu direito de cantar na sua língua materna. Fale sobre isso.
LBC: Em Portugal sempre tentaram impor a língua portuguesa sobre a minha música com argumentos baratos. Uns diziam: “ estás em Portugal, devias cantar em Português”; outros diziam: “podias atingir um  maior número de ouvintes”. Mas eu nunca ouvi nenhum deles a questionar alguém que cante em inglês ou outra língua européia. Não percebem o inglês mas gostam da música. A música tem uma linguagem universal que vai para além da semântica. Na minha opinião, essas pessoas reproduzem o imperialismo cultural anglo-saxônico imposto sobre eles, ou que eles mesmos aceitaram e agora querem reproduzir o comportamento sobre mim. Não aceito paternalismo de ninguém. Minha língua é importante para mim.

JP:Na sua opinião, qual é a importância de uma língua dentro de uma cultura? O que representa a extinção de uma língua?
LBC: A extinção de uma língua representa quase a destruição da identidade de um povo. Todo esse problema de escravidão mental, da mente atlântica está relacionado com a extinção das línguas africanas durante a passagem média. A língua está intrinsecamente ligada a cultura. Se a língua desaparecer, também a cultura vai desaparecer.

JP: Para além da música, que outras medidas podem ser tomadas para reverter esse processo de extinção de uma cultura?
LBC:
Para além da música penso que a escola tem um enorme papel na preservação das línguas nativas, assim como os meios de comunicação. Em Cabo Verde, depois 40 anos de independência  a língua cabo-verdiana ainda não é lecionada nas escolas. Acho isso é muito grave.

JP:Em Portugal a o Crioulo representa um importante instrumento de fortalecimento da identidade africana. Na sua opinião, o que significa isso?
LBC:
Sim, significa muito, a comunidade unida com base na língua é mais coesa do que uma comunidade onde a sua língua foi extinta. Para nós, o crioulo é grande instrumento de fortalecimento da identidade africana em geral e da identidade cabo-verdiana em particular.

A artilharia brasileira: o RAP indígena

Costumes, tradições  e lutas são transformados em rimas na língua Guarani. Com essa atitude o Bró MCs mostram a História do Brasil através da resistência dos povos indígenas.

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Lançando flechas de conscientização sobre a questão do índio no Brasil,  mesclando o português com o idioma Guarani, os guerreiros Bró-MCs, da aldeia Jaguapirú Bororó, no Matogrosso do Sul lutam pelo respeito e valorização da cultura indígena.

Não é preciso muito esforço para compreender a situação do índio no Brasil. Se pegarmos o exemplo mais banal, como a televisão, em que momento vemos a representação, qualquer que seja, desse povo?

Do genocídio causado pela colonização, uma das consequências foi os povos indígenas ficarem a margem da sociedade onde eles são um dos principais protagonistas.

Para além dos massacres históricos, na atualidade a situação não mudou. Índios continuam a serem assassinados defendendo a sua terra e a sua cultura. Jogos de poder, falta de políticas públicas e falta de respeito são constantes quando o assunto é a questão indígena.

A luta tem sido constante, porém, a cada dia é algo importante que se perde: uma língua, um costume, uma tradição.

Os jovens Bruno Veron, Charlie Peixoto,  Kelvin Peixoto e Clemerson Batista  representam o  anseio do povo indígena pelo seu reconhecimento e as batalhas diárias pela sobrevivência de sua cultura.

Na entrevista a seguir, relatam um pouco do que é denfender seu povo e sua história, através da música.

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JP: Por que você canta na sua língua nativa? O que isso significa para você?

Brô MCs:Cantamos nosso Rap em Guarani porque é a nossa forma de resistência. Cantamos misturando as línguas português e guarani, para que os não indígenas possam ver, ouvir e sentir a nossa realidade, como de alguma forma estão envolvidos com a manutenção dessa realidade vivida nas aldeias de Mato Grosso do Sul. A língua é a primeira fronteira ou a ponte ideal pra gente trocar conhecimentos. Os Guarani se mantêm vivos pela sua cultura e por se apropriar de outras, no caso do Brô tendo o Rap como ferramenta.

JP: Na sua opinião, qual é a importância de uma língua dentro de uma cultura? O que representa a extinção de uma língua?

Brô MCs: A língua nos mantém unidos, seja aqui no Brasil ou em outros países. Estivemos por esses dias em Assunção no Paraguai e pudemos perceber que a língua guarani é a mesma lá, que a gente se comunicava muito bem com os paraguaios, também indígenas ou descendentes. Nesse caso a língua aproximou as fronteiras.

JP:Com a colonização a cultura indígena foi dizimada no Brasil. O índio, um povo que como todos os outros tem a mesma importância na construção do país, foi colocado de lado e toda a sua cultura foi marginalizada. O que o Brasil precisa realmente fazer para reverter essa situação, para que a cultura dos indios brasileiros passe a ser mais respeitada?

Brô MCs: Precisamos de mais respeito, amor, mais tolerância.  Muito se fala nos conflitos fora do Brasil e se dá importância pra isso aqui, mas os conflitos aqui dentro parece que não mostram. O indígena e as culturas indígenas tem o seu valor e o Brô MC`s está aqui para que, por meio do Rap a gente faça isso valer.

A língua guarani e a resistência dos povos indígenas

Um das línguas mais faladas na América do Sul, a língua Guarani vem do tronco das línguas Tupi-guarani, onde se ramificam outras 21 línguas.

Durante a colonização, até a década de 1750 era preciso compreender um pouco dessa língua para se comunicar no Brasil, porque o uso do Português ainda não estava consolidado.

Alguns missionários estudaram e registraram o Guarani para poderem falar com os índios com o objetivo de “civilizá-los”. O primeiro dicionário da língua Guarani foi escrito em 1639 e publicado em Madrid.

Impor a língua Portuguesa foi uma das medidas adotadas para erradicar os costumes dos índios, que eram considerados tribais e inferiores.

Nas escolas que foram criadas com o objetivo de ensinar o Português e os costumes ocidentais às crianças e jovens índios, era proibido falar Guarani sob a ameaça de serem severamente castigados.

Mas o pior castigo foi a ruptura dos laços familiares, já que proibir os jovens de ter contato com seus pais e avós, que mostravam maior resistência em aprender o Português, era uma medida usada para que esses jovens não tivessem contato com os falantes da “língua proibida”. Com isso, o estrago foi facilitado: sem um contato com a sua cultura, sem comunicação com seus ancestrais, a cultura europeia foi se fortalecendo nas terras brasileiras e a cultura e costumes de um dos povos que representam o Brasil por excelência foram marginalizados. A língua Portuguesa triunfou e tornou-se a língua oficial do Brasil.

Hoje, apesar da grande maioria dos brasileiros desconhecer um de seus maiores tesouros, o multilinguismo que existe no Brasil, é curioso ver que, mesmo sem nenhuma difusão nos meios de comunicação de massa uma língua indígena se mantém viva e com  força como o Guarani.

 

 

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