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Sabotage é destaque na Revista Trip de março de 2013

Texto Anna Virgínia Balloussier
Fonte Trip

O HOMEM DO ANO: Dez anos depois de sua morte, Sabotage ainda é o cara do rap nacional

Disco com inéditas, biografia, HQ, documentário, filme de ficção: dez anos depois de sua morte, Mauro Mateus dos Santos – para os amigos de infância, Maurinho; para todo o Brasil, Sabotage – ainda é o cara

“Na sua meninice, ele um dia me disse que chegava lá. 
Olha aí! Olha aí! Olha aí, ai, o meu guri, olha aí…”

Mauro Mateus dos Santos, maestro da periferia, ator de cinema, traficante dos dois revólveres na cinta, namoradinho da Dalva, filho da guerreira dona Ivonete, devoto de Iemanjá e sobretudo um devoto do rap nascido na favela do Canão, zona sul de São Paulo, disse em sua última entrevista, publicada postumamente na Trip de março de 2003, que Chico Buarque poderia muito bem estar falando dele quando escreveu o samba “O meu guri”. “Aquilo era o meu retrato no morro”, contou Sabotage, ou simplesmente Maurinho, que se descrevia na entrevista como “o cara que olha nas bolinha dos zoio”.

Sabotage completaria 40 anos no dia 3 de abril, mas não chegou ao 30º aniversário. Na madrugada de 24 de janeiro de 2003, às 5h50, quatro tiros lhe atingiram boca, ouvido e coluna cervical. Dez anos após sua morte, o autor do icônico “Rap é compromisso” (2000) é tema de um documentário, uma biografia, um disco com músicas inéditas e um filme de ficção. O produtor Denis Feijão negocia ainda com a família levar a vida de Sabotage ao cinema, sob direção de Walter Carvalho. Enquanto filmava com Carvalho o documentário Raul – O início, o fim e o meio, sobre Raul Seixas, o produtor conheceu Wanderson “Sabotinha”, primogênito do rapper. Na mesma época, foi apresentado a Jonathan Azevedo, o Negueba, ator espichado do grupo de teatro Nós do Morro, que tinha um sonho: fazer o papel de Sabotage num filme. “Ele é muito igual, tem os cacoetes, faz rima”, afirma Feijão.

A produção ainda não confirma, mas chegou à família a informação de que a viúva, Dalva, poderá ser vivida por Mariana Ximenes (a atriz diz que não sabe de nada, mas “adoraria”). Ela, Sabotage e Paulo Miklos, do Titãs, estrearam no cinema juntos, com O invasor (2001), de Beto Brant. Sabotinha, hoje com 20 anos, diz que poderá interpretar o pai quando bem jovem, na época do tráfico. Em fase de pesquisa e roteirização, o filme de Walter Carvalho talvez ganhe estrutura narrativa semelhante à de I’m not there, cinebiografia em que vários atores se revezaram no papel de Bob Dylan. “Acho impossível ter uma ficção [convencional] de personagens como ele, como Raul, Cazuza ou Tim Maia”, diz Feijão.

Ele define Sabotage como “o nosso 2Pac”, em referência ao rapper americano Tupac Shakur, morto a tiros, em 1996. No documentário  , que Feijão também ajuda a produzir, Sabotage se mostra um homem múltiplo. O cineasta Beto Brant, que o dirigiu, o alinha a Chico Science e Bob Marley. O amigo Rappin’ Hood compara: é o Garrincha do rap brasileiro. Para Alê de Maio, autor dos quadrinhos que estão nesta reportagem, era o Che Guevara das quebradas.

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Diretor do documentário, Ivan Ferreira quer colocá-lo na praça até o fim do ano. Já são 11 anos rodando: Ivan tinha 20 anos e era, como se define, um “maloqueiro playboy de Perdizes” quando entrevistou Sabotage pela primeira vez. Agarrou o desafio de costurar as “várias histórias desencontradas” sobre o homem por trás do mito – de uma suposta “letra de amor” escrita para o colega Mauricio Manieri até histórias de tempos menos adocicados numa boca de drogas na Vila da Paz, favela onde Sabotage morou nos anos 90.

O álbum com 11 faixas inéditas tem produção de antigos parceiros: Daniel Ganjaman, Tejo Damasceno e Rica Amabis, da banda Instituto. O disco, conta Tejo, “mostrará tudo o que ele é capaz de fazer”, o sincretismo musical que juntou o rap a gêneros como samba e rock. Já a biografia é assinada por Toni C., autor de O hip-hop está morto. Toni não conheceu seu biografado. Por pouco: o encontro aconteceria no Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, onde o músico tinha compromisso naquele 24 de janeiro. Sabotage disse a amigos que pretendia estar de volta a São Paulo no dia seguinte, aniversário da cidade.

Há controvérsias

“Quando se trata de Sabotage, há muitas histórias mal contadas”, diz Toni. Segundo ele, por exemplo, diferente do que está cravado na Wikipédia e até em sua lápide, foi no dia 3 de abril, e não 13, que o filho de Júlio dos Alves Santos e Ivonete Mateus de Melo veio ao mundo. Aos 15 anos ele conheceu o pai, vulgo Julião Carroceiro, que às vezes aparecia bêbado. A mãe foi doméstica, costurou, passou. Fez de tudo um pouco para sustentar três filhos – o caçula, Maurinho, Deda, que se envolveu com o tráfico e morreu nos anos 90, e Paulinho, “sem saúde mental”, segundo Toni C. O barraco deles na favela do Canão não existe mais – a área, na avenida Jornalista Roberto Marinho, virou canteiro de obras do metrô. Crescer nessa quebrada formou o músico e o militante. Sabotage consagrou o lema “respeito é pra quem tem” em seu único disco, Rap é compromisso, lançado pelo selo Cosa Nostra, dos Racionais MC’s de Mano Brown. “Ele enxergava o rap como instrumento de mudança. Com o microfone na mão, a gente tem responsabilidade de levar nosso povo para coisas melhores. Povo preto, pobre, da periferia”, resume Rappin’ Hood.

Hoje, o Canão se restringe a poucas vilinhas, algo parecidas com a do seriado Chaves. Sabotage continua sendo “o cara” por lá. Seu rosto está grafitado num muro, e Tainá, jovem de 15 anos, carrega um pôster da irmã mais velha que exalta o “poeta, guerreiro e sobrevivente”. Rosângela dos Santos, 37, conheceu o menino no colégio. Lembra de um diálogo recorrente do colega, “corintiano roxo”, com uma professora “que pegava no pé dele”:

– Ô, Mauro! Mauroooo! Cadê sua lição?

– Tá aqui. Minha lição é minha música.

O aluno mostrava o caderno rabiscado com composições. Sabotage, que cursou o ensino fundamental, foi guardador de carros e feirante, falava em ser office-boy, mas entrou no tráfico mais ou menos na época em que a mulher, Maria Dalva, engravidou de Wanderson (as datas são incertas: o próprio Sabotage relatou à Trip que, aos 8 anos, já vendia droga). Antes disso, sem grana, Sabotage usava camisetas suas como fraldas para o bebê. De repente, fraldas descartáveis, leite em pó e outros “luxos” entraram na rotina. Opção que “ajudou a família”, diz o documentarista Ivan.

Clique aqui e leia a matéria na íntegra, no site da Revista TRIP.

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