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Dez anos sem o Maestro do Canão

Por Lucio Carvalho

Há quem não goste, é um direito. E há quem não aceite por puro preconceito. Mesmo que traga no próprio nome a qualidade de literatura e que tenha produzido ao longo dos últimos vinte anos milhares de versos, o rap – ou rythm and poetry – continua esmurrando os limites da sociedade brasileira, sem entretanto obter todo o reconhecimento a que faz jus. É de pensar se isso tem mesmo alguma relevância, já que é do lado de dentro das periferias que continua percutindo sua batida e repercutindo a criação dos versejadores do rap nacional. Pois é graças ao seu próprio público e seus autores (se é que se permite usar o termo) que logo no início de 2013, mais precisamente em 24 de janeiro, não passará batida a primeira década da morte do maestro do Canão, o Sabotage, assassinado com quatro tiros nas costas, no auge de sua carreira.

Contam que Mauro Mateus dos Santos, o Sabotage, guardava os versos na sola do pé, como um tesouro. Dono de uma obra registrada em um disco seminal do rap nacional (Rap é compromisso), demorou para que seu talento fosse descoberto. Antes disso, Sabotage frequentou outras paradas, registrando passagem pela FEBEM e outros lugares menos recomendáveis. Suas letras falam das ruas e das quebradas, atravessando o asfalto e a geografia da cidade de São Paulo. No cinema, atuou em O Invasor, de Beto Brant e colaborou intensamente com Hector Babenco, em Carandiru. O diretor Walter Carvalho (de Raul – O Início, o Fim e o Meio) atualmente trabalha em um longa sobre sua vida. Deve ser lançado em 2013.

Mesmo passados dez anos e dado como resolvido, o assassinato de Sabotage ainda é cercado de mistério. O que ele continua a mostrar é que o crime e suas estruturas às vezes parecem se confundir às vísceras da periferia. Em tempos onde coexistem chacinas e pacificação, cabe pensar se há outro cenário possível, ou mesmo se há alguém interessado nisso. Sabotage sabia disso e nunca saiu dali, da favela do Canão, e fez da paisagem o cenário dos versos de quem vê de dentro o que muitos não gostam de ver nem de longe. Mortes mal explicadas são rotina, assim como o envolvimento com o crime, nas favelas brasileiras. O que não é rotineiro é o talento que Sabotage tinha para colocar rimas precisas dentro da dura realidade das quebradas.

Sabotage foi mais um dos que caíram para dentro. Por seu legado, o rap nacional, a poesia e a música brasileira não deveriam esquecê-lo, a não ser que ninguém se importe em riscar do mapa e da história o poder dos seus versos, ainda festejados por milhares de fãs. Há quem não veja poesia nas rimas de Sabotage e de tantos outros letristas do rap nacional, o que ainda precisaria ser melhor compreendido. Felizmente, alguns críticos e grandes autores da MPB, como Caetano Veloso e Chico Buarque (ver aqui – http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI1214400-EI6596,00-Chico+Buarque+diz+que+gente+do+rap+o+influencia.html), têm contribuído em reconhecer a inovação e a importância do rap nacional no cenário cultural brasileiro, principalmente no que se estabeleceu desde uma década antes da virada do século.

Ao lado de outros que se tornaram conhecidos de um público mais amplo e daqueles que aos poucos garimpam seu espaço, a voz de Sabotage é o eco de uma história já antiga e que criou muitas raízes. Infelizmente não se pode saber onde Sabotage teria chegado hoje, mas está claro que muitos estão onde estão apenas porque no passado artistas como ele romperam muitas barreiras da sociedade e da cultura brasileiras – não porque se tratassem de invasores, mas por terem criado um diálogo crítico capaz de ser assimilado para além do perímetro dos gêneros musicais e dos limites da geografia urbana, para a felicidade de muitos e a consternação de alguns que lamentavelmente prefeririam manter a música e a poesia brasileira livres dos versos que vêm da periferia. Não é viagem…

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